Quinta-feira, 2 de julho de 2020

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Não confunda talento com vocação!

16 Jun 2020 - 22:01

Rubens Russomanno Ricciardi

Não confunda talento com vocação!

Foto: Divulgação/FFCLRP


Temos que diferenciar talento de vocação. Vamos nos lembrar inicialmente de Clarice Lispector. Ela já havia se dado conta desta confusão reiterada: “Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”. Por que uma grande escritora como Clarice Lispector, confessando as dificuldades em seu ofício, chama a atenção para as diferenças entre talento e vocação? Vamos procurar definir talento e vocação, introduzindo ainda outro conceito à discussão: superação.

Talento
A performance de quem tem talento é sempre diferenciada em todas as áreas do conhecimento humano, seja ciências, filosofia ou artes, e mesmo nos mais diversos ofícios. Talento é como autoridade: quando se põe em questão, é porque não existe enquanto tal. Não há nada mais patente e inquestionável que o talento. Sem talento, contudo, é possível desenvolver algumas habilidades. Um aluno esforçado, em uma boa escola, pode até aprender alguns procedimentos para uma aplicação prática. Mas não vai muito longe sem um verdadeiro talento. Sem nenhum talento não vai além de um mero diletantismo, mesmo que com algum recurso ou conhecimento técnico.

A falta de talento empurra alguns profissionais para uma atuação restritamente “teórica”. As aspas aqui indicam que a tal teoria será invariavelmente frágil, mesmo que rígida. Aliás, a rigidez e o excesso de normas, características dessa gente, são antes maneiras de escapar do rigor que envolve necessariamente os amplos e complexos processos do conhecimento. Esse tipo de “teoria”, na qual se confunde rigidez com rigor (são rígidos, mas sem rigor), não se sustenta porque, como é mera escapatória da falta de talento (a teoria se tornando o refúgio de frustrados), acaba sempre apartada da práxis (interpretação-execução e atividades práticas em geral), da poíesis (elaboração de obras ou outras formas de invenção), das experiências (condição empírica de determinados conhecimentos) e ainda do pensamento crítico-conceitual, o qual é a base de toda teoria.

É bom esclarecer que não há antagonismo entre teoria e prática. Teoria sequer é sinônimo de abstração. A definição histórico-filosófica do conceito de teoria remonta a um modo de visão que, para além da mera observação, ainda que dependa da visão sensível, atravessa essa sensibilidade no intuito de penetrar agudamente no que seria a natureza (phýsis) dos fenômenos. Daí que originalmente a palavra theoria implica uma práxis da visão analítica do que existe de fato (criado pela natureza ou inventado pelo homo sapiens). Essa análise do concreto pretende ver a fundo as coisas e suas circunstâncias, sendo um modo distinto do olhar, o olhar próprio do conhecimento. Assim, há que se ter talento para a teoria. Sem talento não elaboramos hipóteses de trabalho que valham a pena.

Vocação
O nome já diz. Vocação vem do latim vocatio (convite) ou vocatus (chamamento). A vocação é o atendimento a um chamado, quando assumimos determinada atividade como sendo o que há de mais importante na vida. A vocação diz respeito ao foco, à prioridade, ao modo como nos dedicamos integralmente, de corpo e alma, ao ofício escolhido. A vocação é, assim, uma missão. A profissão se torna um ente sagrado. A vocação carrega sempre essa analogia missionária.

Voltando ao detalhe levantado por Clarice Lispector, quase sempre despercebido, sabemos que o talento independe da vocação e vice-versa. Vamos então às condições e aos casos possíveis, em matéria de talento e vocação, cujas relações coincidem ou não em um indivíduo:

Com talento e com vocação – que maravilha!
Sem talento e sem vocação – estes nem se aproximam de determinado ofício. Assim, o problema está resolvido.
Com talento, mas sem vocação – estes não prejudicam ninguém. O sujeito até escolhe outra profissão. Também está tudo bem, lamenta-se apenas o talento desperdiçado.
Com vocação, mas sem talento – nestes temos um problema, de fato triste ou assim deveria sê-lo.
Vamos a este imbróglio, menos raro do que se possa imaginar, daquele com vocação, mas sem talento. Em especial, o excesso de vocação, sem quase ou nenhum talento, leva, mais cedo ou mais tarde, a terríveis constrangimentos. O sujeito com vocação, mas sem talento, é em geral organizado, focado, pontual, sério, até mesmo sisudo (para ser respeitado). Faz de conta que é exigente consigo mesmo, sendo de fato exigente só com os demais. Não raramente tenta citar frases em inglês, demonstrando toda sua erudição. Em seu ofício, como seu talento redutivo não o anima a aventuras inventivas, nem engenhosas e nem mesmo prático-operacionais, ele ocupa seu tempo para aborrecer aqueles que o cercam. A resolução de problemas lhe é algo estranho. Ele arruma invariavelmente alguma confusão, sempre perturbando o processo inventivo ou o engenho mais fecundo dos talentosos.

Galileu Galilei, pai das ciências modernas, disse no início do século XVII, sobre os geocentristas que o perseguiam, que “o maior ódio que existe no mundo é aquele da ignorância contra o conhecimento”. Nós gostaríamos de acrescentar à polêmica de Galileu que, maior que este ódio, o da ignorância contra o conhecimento, é ainda o ódio da falta de talento contra o talento. O sem talento não suporta o talentoso.

Por conta de seu tempo livre, justamente pela falta do que fazer na profissão de fato, este perfil do sem talento, mas vocacionado, acaba assumindo postos administrativos e até ascendendo na carreira. Muitas vezes substituem a falta de talento por uma boa lábia, em geral com bajulações oportunistas. Lembremo-nos de Iago (da peça Otelo, o mouro de Veneza), o mais consagrado personagem literário deste perfil, tão bem construído por William Shakespeare e, séculos depois, aperfeiçoado pelo libretista Arrigo Boito. O Credo in un Dio crudel, na ópera de Giuseppe Verdi, é o Hino dos sem talento, mas dotados de forte vocação. Querendo vingar-se por não ter sido promovido, Iago fez com que Otelo, movido por calúnias e intrigas ardilosas, matasse sua esposa Desdêmona, de fato fiel.

Já Jean-François Lyotard, filósofo francês, propôs o conceito de decisor para definir o terror tecnocrata de nossos tempos. Trata-se de um perfil frequente de executivo contemporâneo que, por sua posição intocável ou influência, causa, sem qualquer remorso, grandes estragos ambientais, sociais, histórico-culturais, científicos, artísticos, jurídicos etc. Não é raro alguém com vocação, mas sem talento, na posição de decisor em funções importantes.

Quando esse tipo de decisor vai contratar alguém, sempre contrata de acordo com a referência de seu próprio perfil. É como se diz no ditado popular: cachorro cheira cachorro! Um profissional nível A contrata um colega de nível A. Claro, o sol brilha para todos. Os talentos se juntam sempre para o melhor. Muito bem. Já um profissional de nível B (o tal vocacionado, mas sem talento) vai contratar quem? Um colega também de nível B? Só que não! Este B vai contratar colegas subalternos de nível C e D, e daí para baixo (causando prejuízos institucionais). Isso porque o B teme a própria sombra. Sua insegurança o leva a atitudes em geral truculentas, mesmo com a aparência de um “cidadão de bem”, de fala mansa, sempre bem-vestido e alinhado. Não raramente sua pontualidade, organização e seriedade aparentes acabam mascarando todo infortúnio que está por trás de sua atuação canhestra.

Superação
É difícil poder contar, nos dias de hoje, com profissionais de excelência, tais como os que buscam confluências ético-estético-epistemológicas. Dizemos aqui ética, estética e teoria do conhecimento compreendidas em uma necessária unidade, porque são de fato indissociáveis. Pode parecer utópico: o caminho ético-estético-epistemológico é sempre o mais digno. Contudo, vivemos em um mundo de “especialistas” e quem tem tomado as decisões está cada vez mais sem noção do que deve ser feito – esta crítica já havia sido profetizada por Hans-Georg Gadamer (filósofo alemão) no final do século XX, antes mesmo do retorno dos governos genocidas da extrema direita populista.

E não bastam talento e vocação. São ainda imprescindíveis a vontade e a capacidade de superação. Superar, queremos dizer, ser melhor que os colegas, sendo ainda mais competitivo/lucrativo que os demais? Não. Não estamos falando em destruir a concorrência – aliás, como é kitsch e antiética essa postura! E como ela destrói o planeta inteiro! Estamos falando da busca pelo aprendizado, pela fusão de horizontes (outro conceito de Gadamer, “pois não vivemos em um horizonte fechado, nem em um único horizonte”), pelo espírito crítico e inconformado.

A superação só é possível com a Bildung. Alguns traduzem Bildung por “formação” ou “formação acadêmica”, “conhecimento geral”. Todavia, a acepção de Bildung, oriunda do Romantismo alemão, implica necessariamente uma dimensão semântica mais ampla e instigante, algo como a “constituição crítico-intelectual de uma pessoa”. Não basta saber, obter informação ou ter facilidade para trabalhar com resultados. É preciso pensar criticamente, incluindo novas combinações teóricas ou inventivas a partir do conhecimento adquirido.

Por fim, o mais importante, temos sempre que perguntar: o que é, como é, de onde vem e a quem serve? Se não levarmos em consideração esses questionamentos, seremos talvez obedientes, mas incapazes de pensar. Essas perguntas evitam que se cumpram ordens estúpidas sem peso de consciência.

Pablo Picasso, artista visual espanhol, dos maiores em todos os tempos, também nos ensinou sobre a necessidade de superação. Ele dizia que “imitar os grandes mestres é sempre saudável. Mas imitar a si próprio é patético”. Eis o princípio da superação em Picasso: não se estagnar na imitação de si próprio. Tal princípio vale não apenas para aqueles que reiteram fórmulas próprias, mas também para os que se encontram reféns voluntários de doutrinas redutivas, assimiladas passivamente desde criança ou convertidas tardiamente, quer seja em uma tribo de indústria da cultura ou em uma seita religiosa (ambos casos de alienação política).

Nos tempos de Picasso estavam vigentes ainda as doutrinas dos partidos fascistas na Europa. Nesse último contexto, o tal si próprio pode ser a armadilha de um engodo ideológico-cultural. Você supõe possuir voz própria, mas apenas imita clichês ad nauseam (repete chavões de outras pessoas, até provocar náusea), tal como no marketing das fake news (notícias falsas, notícias forjadas) dos nazistas: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Você se sente tão envolvido naquela cultura que a considera seu mundo próprio. Só que não é. Você se torna imitador de si próprio, sendo você mesmo o resultado de um simulacro. Vive-se em um mundo falsificado.

Talento e vocação requerem a superação dialética crítica e autocrítica. Toda crítica é crítica da linguagem e contrária às ideologias opressoras. Há que reconhecer a contradição, justamente onde ela está sendo camuflada, dissimulada em uma aparência alienada (falsa fecundidade harmônica). Sem o devido distanciamento crítico não deixaremos jamais de ser esse eu patético criticado por Picasso, este falso eu, este si próprio pobre de mundo, restrito a tagarelices não raramente fascistas (o artista era oposição a Franco) e desprovido de linguagem. Em um só golpe se vivencia a morte da ética (ódio e violência) e da estética (mau gosto de uma paródia do coletivismo), golpe este envolto em precariedades epistemológicas (demonização das ciências, artes e filosofia).

Em meio a tais arbitrariedades, temos que ter a humildade e também a capacidade de superação de uma Clarice Lispector, procurando compreender as contradições do mundo para além de nosso próprio talento e vocação, porque nada é fácil na vida. O mundo da vida nos exige sensibilidade e força de um Aquiles.

 
Rubens Russomanno Ricciardi, professor titular do Departamento de Música da FFCLRP-USP
Jornal da USP

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